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O Brasil mudou a matemática da precificação

“A nova lógica tributária que muda preços, margens e estratégias de investimento.”

Quando falo sobre a Reforma Tributária brasileira com investidores, costumo ser direta: não estamos diante de uma simples mudança de impostos. Estamos diante de uma transformação estrutural na forma como preços são formados, custos são controlados e margens são preservadas no Brasil. A partir de 2026, o país passa a operar sob uma nova lógica econômica, e entender isso antes de investir deixou de ser diferencial. Tornou se necessidade estratégica.

No novo sistema, os impostos deixam de estar embutidos no preço e passam a ser destacados por fora. Isso altera completamente a leitura financeira dos negócios. O que antes ficava oculto na composição de custos agora aparece de forma clara, transparente e mensurável. Para quem investe, essa mudança representa previsibilidade, disciplina financeira e melhor capacidade de projeção de retorno.

Essa transformação decorre da Reforma Tributária instituída pela Emenda Constitucional nº 132 de 2023, que introduz o IVA Dual brasileiro. De um lado, a Contribuição sobre Bens e Serviços de competência federal. De outro, o Imposto sobre Bens e Serviços administrado conjuntamente por Estados e Municípios. Soma se a isso o Imposto Seletivo, aplicado a produtos específicos. O objetivo não é reduzir carga tributária global, mas eliminar distorções históricas, simplificar o ambiente de negócios e alinhar o Brasil a padrões internacionais de tributação do consumo, conforme diretrizes da Receita Federal, das administrações estaduais e das Prefeituras.

Para investidores, o impacto é imediato. O sistema anterior operava majoritariamente com tributação por dentro, em que o próprio imposto integrava sua base de cálculo. Isso inflava preços, mascarava custos reais e contaminava margens sem que muitos percebessem. Com a reforma, CBS e IBS passam a ser calculados por fora, permitindo separar com clareza custo econômico, preço e efeito fiscal. Essa mudança redefine valuation, precificação e controle de custos, três pilares centrais para qualquer decisão de investimento no Brasil.

Na indústria e na manufatura, vejo uma mudança estrutural positiva. O novo IVA garante não cumulatividade plena, com crédito financeiro integral sobre insumos, serviços e bens de capital. Exportações passam a ser totalmente desoneradas, com recuperação de créditos, melhorando fluxo de caixa e competitividade internacional. Para o capital estrangeiro, isso significa menos custo oculto e mais previsibilidade de margem. Em cadeias específicas, como energia e combustíveis, o Imposto Seletivo exige atenção redobrada ao controle de custos e à gestão contratual.

No comércio e no varejo, a mudança é sentida imediatamente na formação de preços. Com o imposto destacado, a margem fica exposta. Isso muda o jogo. Empresas eficientes ganham vantagem competitiva. Estruturas ineficientes perdem espaço. Para investidores, a tese deixa de ser fiscal e passa a ser operacional. Escala, giro, logística e disciplina de custos tornam se os verdadeiros diferenciais.

No setor de serviços, o impacto varia conforme a essencialidade da atividade. Saúde, educação, transporte público e determinados segmentos de tecnologia contam com tratamentos diferenciados. Já serviços considerados não essenciais tendem a enfrentar carga efetiva maior, exigindo revisão profunda de modelos societários, políticas de precificação e contratos. Na prática, quem entende a nova lógica e precifica corretamente preserva margem e competitividade. Quem ignora, perde valor ao longo do tempo.

O agronegócio segue como um dos pilares estratégicos do país. O setor mantém reduções relevantes e crédito ao longo da cadeia, além de regras mais uniformes que reduzem litígios e incertezas regionais. Para investidores internacionais ligados a commodities, alimentos e sustentabilidade, o Brasil continua sendo uma plataforma estratégica de produção, agora com maior racionalidade tributária e leitura clara de custos.

No comércio exterior, a reforma traz avanços importantes. Importações passam a operar com creditamento mais objetivo e previsível, enquanto exportações permanecem integralmente desoneradas. A previsibilidade na restituição de créditos reduz custo financeiro e melhora a viabilidade de projetos de longo prazo. Ao mesmo tempo, regimes especiais e estruturas de trading precisam ser reavaliados à luz do novo IVA, especialmente durante o período de transição.

Outro ponto que considero decisivo é o fim gradual da chamada guerra fiscal. A substituição progressiva de ICMS e ISS pelo IBS reduz incentivos artificiais e desloca decisões de localização para critérios econômicos reais, como logística, infraestrutura e proximidade do mercado consumidor. Para investidores, isso reduz risco regulatório e melhora a qualidade do retorno esperado.

Entre 2026 e 2032, teremos a convivência de dois sistemas tributários. Esse será o período de maior complexidade operacional. Investimentos estruturados sem considerar essa transição correm o risco de sofrer erosão de margens, falhas contratuais e perda de créditos tributários. Por outro lado, quem entende desde já que o imposto não compõe mais o preço, mas é destacado de forma transparente, consegue planejar melhor, proteger retornos e construir vantagem competitiva.

Na prática, o novo ambiente exige ajustes claros. Reprecificação técnica, controle rigoroso de custos, contratos alinhados à nova lógica, valuation baseado em margens mais limpas e governança tributária integrada tornam se elementos centrais da estratégia de investimento. O Brasil deixa de esconder custos e passa a expor eficiência.

Para mim, essa é a maior mudança. O país se torna mais técnico, mais previsível e mais alinhado aos padrões globais de governança e retorno sobre capital. Investir no Brasil passa a ser menos sobre improviso e mais sobre estratégia, estrutura e execução.

Priscila Campos
CEO do Grupo International
Especialista em Planejamento tributário e governança corporativa internacional .

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