Com fluxo de capital produtivo superando marcos históricos, a convergência para o sistema de tributação sobre valor agregado elimina a opacidade fiscal, reduz o risco país e reposiciona o Brasil na rota dos conselhos globais de administração.
Por Priscila Campos
Empresária, contadora e CEO do Grupo International; especialista em estruturação empresarial, governança corporativa e internacionalização de negócios.
O Retorno dos Grandes Players: O Novo Momento do Mercado Brasileiro
O cenário do investimento multinacional no Brasil passa por uma inflexão sem precedentes nos últimos anos. Relatórios recentes de organismos multinacionais, como a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), confirmam o país no grupo dos cinco maiores destinos de Investimento Direto no País (IDP) em todo o mundo.
Apenas no primeiro semestre de 2026, o ingresso de capital produtivo atingiu quase 47 bilhões de dólares, sinalizando um crescimento aproximado de 33% em comparação com o mesmo período do ano anterior. O Banco Central do Brasil já projetou a entrada acumulada de 75 bilhões de dólares para o ano.
O volume de capital não busca apenas oportunidades conjunturais ou ganhos especulativos de curto prazo. Trata se do aporte definitivo em ativos reais, infraestrutura de grande porte, transição energética, parques industriais e centros de tecnologia.
A pergunta central nos conselhos executivos em Nova York, Londres, Frankfurt e Singapura deixou de ser a busca por tamanho de mercado. O ponto crítico sempre esteve na previsibilidade do retorno.
É exatamente nessa lacuna histórica que a adoção do IVA Dual gera um impacto profundo.
A Convergência com a OCDE: Quando o Brasil Passa a Falar a Língua dos Fundos Globais
A aprovação da reforma tributária por meio da Emenda Constitucional número 132 de 2023 e sua regulamentação pela Lei Complementar número 214 de 2025 marcaram o fim de uma era de assimetria informativa.
Historicamente, multinacionais e grandes conglomerados enfrentavam o que os analistas financeiros chamavam de barreira de tradução. O sistema brasileiro de impostos sobrepostos e cumulativos não encontrava paralelo nas principais economias do planeta.
Com a implantação gradual do IVA Dual, dividido entre a Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) no âmbito federal e o Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) no âmbito subnacional, o Brasil adota a exata premissa utilizada por mais de 170 países.
Os pilares de atratividade para a classe de investidores institucionais
• Transparência na Cadeia de Valor: A tributação deixa de incidir sobre o processo produtivo para incidir estritamente sobre o consumo final no local de destino.
• Não Cumulatividade Plena: Cada centavo pago em etapas anteriores gera crédito financeiro imediato, impedindo a formação do efeito cascata sobre investimentos produtivos.
• Fim da Guerra Fiscal Irregular: Regras unificadas em todo o território nacional reduzem litígios jurídicos e eliminam disputas estaduais que paralisavam decisões operacionais.
• Padrão Internacional de Contabilidade: Diretores financeiros e analistas de M&A conseguem projetar métricas financeiras usando exatamente os mesmos modelos matemáticos empregados na Europa e na América do Norte.
Desoneração do Capex e Otimização do Retorno sobre Capital
Para multinacionais que avaliam construir instalações de alta complexidade tecnológica ou redes de distribuição logística, o custo do capital inicial representa a principal variável de aprovação do projeto.
No modelo tributário anterior, uma parcela substancial do aporte em máquinas, equipamentos e infraestrutura ficava retida na forma de impostos não ressarcidos ou de difícil recuperação. Essa ineficiência inflava o custo do capital e reduzia a Taxa Interna de Retorno projetada nos comitês globais.
Com o novo modelo de crédito amplo e rápido sobre bens de capital, o custo inicial do investimento cai expressivamente. A consequência direta é a aceleração do payback dos projetos e o aumento do Retorno sobre o Capital Investido (ROIC).
Essa mudança estrutural reposiciona o Brasil na disputa global por fábricas, centrais de dados, complexos de energia limpa e operações de consolidação regional no ecossistema do nearshoring.
A Importância do Planejamento Estratégico Durante o Período de Transição
Embora o alinhamento com a lógica internacional traga otimismo ao mercado, a transição para a vigência plena do IVA Dual exige governança e planejamento antecipado.
As companhias que obtiverem os melhores resultados nos próximos anos serão aquelas que estruturarem suas operações ainda na fase de transição.
- Reestruturação da Governança Fiscal: Mapeamento detalhado dos fluxos de suprimentos para garantir o aproveitamento integral dos novos créditos federais e estaduais.
- Revisão de Estruturas Societárias e Fusões: Ajuste de veículos de investimento e holdings para otimizar a distribuição de lucros e a repatriação segura de divisas.
- Atualização de Sistemas e Conformidade: Adequação das ferramentas de compliance corporativo para lidar com a coexistência temporária entre os tributos legados e o novo sistema.
A adoção do IVA Dual representa a ponte definitiva entre o potencial brasileiro e a tomada de decisão do capital global. Quando o investidor entende a regra e consegue confiar nos números, o projeto sai da prateleira e o investimento acontece.